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QUEM MATOU NOSSOS JOVENS

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O lado individualista do homem é indicado como o maior vilão do que se sucedeu entre as 3h15min e as 3h23min da madrugada do dia 27 de janeiro, em Santa Maria/RS.
Se considerarmos a previsibilidade dos efeitos devastadores do descaso de empresários da noite, artistas e agentes públicos que mergulharam os brasileiros na dor da perda de tantos jovens, no curso de 8 minutos, a tragédia era esperada. Mas a cadeia de responsabilidades pelas 238 mortes até aqui vai além do que se propala.
Como indivíduos, consciente ou inconscientemente, participamos da vida dos nossos contemporâneos. Daí qualquer um de nós sentir o bem estar moral abalado pelos defeitos das bases gerais e ultrapessoais da nossa época.
Acontece que nossos jovens estão mortos também pelo conformismo que acoberta a impunidade e leva a tamanha desumanidade.
Adentrar no mérito da conveniência de projetos, recentes e antigos, de alterações da legislação sobre novos requisitos mínimos de funcionamento de ambientes multitudinários, proibição do uso de produtos pirotécnicos em ambientes fechados e punições mais severas aos infratores das normas de postura não interessa agora.
Importa que, no meio do jogo de empurras, não serão apenas as sugestões de mudanças formais que pululam pelo país o suficiente para tornar o Brasil um lugar mais seguro. A forma sem substância nada vale.
Podemos ter os melhores códigos, os melhores estatutos, as melhores leis. Nada valem, porém, se muito do que está escrito não se cumpre, ou porque as funções executivas funcionam mal, ou porque as demais funções públicas independentes e os seus órgãos de controle – sucateados, atacados ou dominados por interesses políticos ou corporativos – deixam de antever os problemas e preveni-los, reprimir os desvios ou leva-los à Justiça, e mesmo de julgar, quando não julgam mal e tardiamente.
Nesta tragédia, não há espaço para falsos heróis, moralismos ou promessas. A sucessão de falhas identificadas revela uma corrupção sistêmica cujo remédio é a consciência cívica impositiva de um sistema público sério, impessoal, profissionalizado, democrático e eficaz de combate dessa patologia social.
Hoje, a fiscalização está nas ruas. Como a Boate Kiss, tantas outras mostram problemas que não surgiram agora. A novidade está no conhecimento da capacidade das irregularidades produzirem infortúnios. Muitas boates, casas de shows e restaurantes estão fechados agora, e amanhã?
As irregularidades são acobertadas pela vista grossa ou cega de quem deveria zelar pela vida da população. As autoridades não enxergam por falta de continuidade de políticas públicas, de qualificação, de controle, de valorização ou mesmo de vergonha de ser corrupto. Enterra-se ou vende-se a autoridade, em meio a tanto improviso e falta de cobrança da população.
O desejo do brasileiro é ver seus filhos educados, sãos, seguros, vivos, e qualquer usurpador dessa vontade, preso ou alijado da condução dos interesses públicos. Mas se acostumou a ser representado por quem, longe de estar preparado para concretizar a vontade legítima daqueles a que serve, apropria-se do Estado para satisfazer interesses privados.
O gás tóxico é apenas parte da causa da morte dos nossos jovens. No ambiente turvo que produziu, está o vulto da responsabilidade de cada um de nós que se omitiu, que se conformou, que se desviou. Guardado o luto, fica a responsabilidade de aprendermos e mudarmos com os graves erros humanos, técnicos e sistêmicos encalacrados no coração de Santa Maria.